Mário Cravo Jr. e Sante Scaldaferri
Artes visuais e artistas baianos: Processos de criação
Bolsista: Neuma Dantas
Mario Cravo Junior nasceu a 13 de abril de 1923 em Salvador, Bahia, Brasil. Desde a adolescência interessa-se por arte. Trabalha no atelier do santeiro Pedro Ferreira, e faz estágio no atelier do escultor Humberto Cozzo no Rio de Janeiro.
Semiótica sob várias visões
O estudo das linguagens e dos signos caracteriza a ciência da Semiótica. Há Semiótica na Literatura, na Lingüística, nas Artes e outras tantas ciências.
Segundo Lúcia Santaella não há comunicação, interação, projeção, previsão, compreensão, etc. sem signos.
Charles Sanders Peirce, fundador do Pragmatismo e da ciência dos signos, a Semiótica, iniciou estudos das experiências humanas ou fenômenos considerando-os como qualquer coisa que aparece à mente, seja sonho, um cheiro, uma palavra, coisa real ou não. Após alguns anos de estudos o pensador nos apresenta (1867) três categorias do pensamento, as saber: Qualidade, Relação e Representação. Para fins científicos, mais tarde, ele muda para as palavras novas:
Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, essas categorias incluem qualquer objeto, qualquer fenômeno pela percepção. O pensador diz que as categorias não são entidades mentais, mas maneiras do pensamento-signo que se processam na mente.
As categorias peircianas (1ª, 2ª e 3ª) estão presentes na classificação dos tipos de signo considerando:
a) Signo em si mesmo
Sin
Legi
b) Signo como objeto
Índice
Símbolo
c) Signo como interpretante
Dicente
Argumento
A Semiótica Plástica, em particular, além de guardar as propriedades da Semiologia traz características próprias de todo e qualquer texto visual. Vamos falar do signo visto como objeto, na função de ícone, que representa a qualidade e a contemplação. Segundo Lúcia Santaella (2002), os ícones são quali-signos que se reportam a seus objetos por similaridade, ou seja ele só pode sugerir ou evocar algo, porque a qualidade que exibe se assemelha a uma outra qualidade.
Os ícones, porque não representam efetivamente nada, senão formas e sentimentos (visuais, sonoros, táteis, viscerais...) têm um alto poder de sugestão. [...] No universo das qualidades, as semelhanças proliferam. Daí que os ícones sejam capazes de produzir em nossa mente as mais imponderáveis relações de comparação. (SANTAELLA, 2002, p.64)

Já Algirdas Julien Greimas (2004), lingüista e semioticista, ao falar sobre Semiótica figurativa e plástica, diz que o ícone, signo motivado, representa o “referente” e remete à “imitação da natureza”. Para ele a relação entre os sistemas de representação icônica pressupõe certa identidade entre os traços e as figuras do representado e do representante.
[...] A atividade do pintor, por exemplo, deve ser compreendida como um conjunto de procedimentos que são cobertos pelo termo imitação e que visam a reproduzir o essencial dos traços da “natureza”. Vê-se que essa atividade pressupõe, da parte do pintor-imitador, uma análise implícita bastante acurada da “natureza” bem como o reconhecimento das articulações fundamentais do mundo natural que pensa estar reproduzindo. (GREIMAS, 2004, p. 78).
Por isso, Greimas, estudioso lituano de origem russa, diz que a Semiótica Plástica é uma linguagem segunda, elaborada a partir da dimensão figurativa da semiótica do mundo natural. Assim, ele admite que os traços e regiões selecionados pelos artistas e transportados para as telas, são pouca coisa em relação à riqueza do mundo natural, “São talvez identificáveis como figuras, mas não são reconhecíveis como objetos do mundo” (2004).
Entretanto não se trata de uma simples imitação, Scaldaferri não transpõe simplesmente o ex-voto para a tela. “Minha pintura é a de gente com cara de ex-voto, e não ex-voto com cara de gente”. Cravo, que também trabalha com a arte popular, nasceu com talento de “imitar” a “natureza”. Não é todo ser humano, entretanto, que pode provocar o lado sensível da humanidade.
Sante Scaldaferri pertence a 2ª Geração modernista da Bahia, conhecida como Geração Mapa. A partir de 1960, sua pintura aporta na Fase Abstrata, denominada por Glauber Rocha de CorBahia. Volta a recriação da pintura popular de 1964 a 68 – cangaceiros, beatos, procissões, o mundo sertanejo é sua expressão.
Visitando sua trajetória, Claudius Portugal, em Novas Pinturas reportagem plástica, diz que em 1973 Sante passa a utilizar como suporte de seus trabalhos a tapeçaria, estandartes de santos, de orixás e bandeiras de festas populares, símbolos nordestinos.
Em depoimento concedido a Ariovaldo Matos, Scaldaferri fala sobre sua produção: “Acima das injunções partidárias, às quais eu não me submeto, meu trabalho é, no mínimo, a minha contribuição para as melhorias de condição de vida do povo do Nordeste e, numa forma mais ampla, do Brasil e do terceiro mundo.
Assim, numa forma mais ampla, o interesse maior da minha pintura é o homem. No entanto, paradoxalmente, a grande presença na minha pintura é a forma do ex-voto. Mas não se trata de simples transposição, o ex-voto simplesmente jogado na tela. Minha pintura é a de gente com cara de ex-voto, e não ex-voto com cara de gente. É a gente nordestina. Esta é a segunda preocupação: o povo do Nordeste”.
A presença da arte e da tecnologia nas obras de Sante Scaldaferri
Ex-Votos
Desde 1957 usa em sua pintura o ex-voto como signo-símbolo, o que contribui para formação da da identidade cultural brasileira. A partir de 1980, “os ex-votos assumem a condição humana para expressarem as fraquezas do caráter, os pecados, assim como suas alegrias e tristezas, amores e ódios. Numa forma mais ampla, o interesse maior de sua pintura é o homem”.
Em artigo do ano 2000, “O que é o ex-voto”, Scaldaferri descreve que se trata de uma promessa ou voto feito, por alguém enfermo, ao santo de fé, pedindo a cura. Ao alcançar a graça, o sujeito manda esculpir ou esculpe a peça e vai, em romaria, entregar ao santo. “Realizando-se o milagre, já não é mais voto ou promessa , é ex-voto”.
As esculturas de madeira, cerâmica ou metal podem ser, conforme Sante, de uma parte do corpo, externa ou interna ou para um animal de estimação."Agora, qual é o valor artístico, qual é o interesse que um artista tem num ex-voto? Qual é o meu interesse? O meu interesse está no fato de que o ex-voto é uma escultura de arte popular - não só escultura,como pintura também”, explana.
Encáustica
A técnica de encáustica e os ex-votos originais ou outros materiais acoplados à pintura são técnicas usadas a partir de 1980. A respeito da técnica ele diz, no texto “Encáustica” (2000) “A encáustica é uma técnica de pintura muito antiga - vem dos gregos e dos romanos.
É uma técnica que tem algumas vantagens sobre as outras porque absorve a luz e não a reflete”. O artista continua a detalhar explicando que a técnica fica mais resistente à proporção em que fica mais velha. Na prática, a encáustica é uma massa composta com verniz proveniente de uma resina indiana e cera de abelha italiana, aplicada na tela, seguindo uma ciência específica no seu preparo.
Arte digital
Os motivos que inspiram a obra de Scaldaferri, o material e as técnicas usadas têm seus correspondentes na Semiótica. A encáustica que remete à massa, como o barro que remete à criação divina, ao árido sertão e, ao povo nordestino são todos signos. Um objeto imediato, como classifica a Charles Sanders Peirce, é a representação que traz elementos, os quais reportam ao objeto.
No caso obra de Sante, os ex-votos e a pintura, signos não-verbais, reportam ao homem, mais diretamente ao nordestino inserido na cultura popular. Toda obra de arte, conforme o criador da Semiótica, é um objeto imediato. O mesmo caminho podemos levar para a interpretação de uma obra de arte pelo expectador.
Análise formal e expressiva das imagens
Título: A pose de Zefinha; Dimensão 160x110 (2).jpg, 46K
Os quadros de Sante Scaldaferri podem ser considerados, dentro da teoria de Umberto Eco, como Obra Aberta. Sua formação permite interpretações variadas e admite aspectos mais relevantes que atuam durante a atividade interpretativa do homem. O mesmo caminho podemos levar para a interpretação de uma obra de arte pelo expectador.